Uma bugiganga para o século XXI- as (famosas) pulseiras do equilibrio

Uma bugiganga para o século XXI
Ricardo Araújo Pereira

De acordo com os últimos dados,
mais de 20 mil portugueses já adquiriram a milagrosa pulseira que todos os estudos científicos dizem não funcionar.
Não admira.
De que serve um estudo científico se a pulseira é ainda mais científica?
Um dos responsáveis pela distribuição da pulseira em Portugal revelou ao Correio da Manhã que o segredo está nos “dois hologramas quânticos embebidos numa frequência com iões negativos” que vão “estabilizar a nossa frequência”.
Quando o jornal confrontou um professor de Física da Universidade de Coimbra com esta explicação, aconteceu o habitual: obviamente invejoso por nunca ter embebido hologramas em iões, o professor disse que aquele paleio pseudocientífico não fazia qualquer sentido.
Infelizmente, na comunidade científica é sempre assim: bem podem as pulseiras reluzir nas montras, com os hologramas ainda a pingar iões, que haverá sempre alguém a negar que as nossas frequências possam ser estabilizadas pelas frequências quânticas. A desfaçatez!

Dito isto, devo, no entanto, confessar que sou moderadamente cético quanto às capacidades da pulseira.
Não digo que a pulseira do equilíbrio não provoque bem-estar.
O que digo é que provoca mais em quem a comercializa do que em quem a usa.
Creio que, se a pulseira do equilíbrio produzisse, de facto, equilíbrio, assim que o seu proprietário a colocasse no pulso pensaria: “Espera aí, acabei de dar mais de 30 euros por uma argola de borracha.
Percebo agora que não foi uma decisão particularmente equilibrada.
Vou à loja tentar recuperar o dinheiro.
” No entanto, é falso que a pulseira não produza qualquer efeito.
Quem a usa passa a empenhar-se numa espécie de proselitismo gratuito, informando os amigos dos benefícios de andar com coisas quânticas ao dependuro.
E é possível que a energia despendida nesta tarefa produza efeitos saudáveis, uma vez que explicar um processo fantasioso através de palavras que não se compreendem constitui um esforço notável.
Pela minha parte, começo a sentir alguns efeitos da pulseira mesmo não a tendo adquirido.
A admiração que tenho pelo fenómeno levou-me a agir de um modo que, segundo creio, não tardará em produzir melhoras na minha qualidade de vida.
O meu plano é encomendar 50 mil anilhas para pombos a dez cêntimos cada.
Depois, mergulha-las num caldo de iões tão quânticos quanto me for possível, e vendê-las a 30 euros a unidade sob a designação de “O Anel da Temperança”.
E, anualmente, renovar o stock de charlatanice quântica com novidades.
O Colar da Constância, Os Brincos da Estabilidade e A Gargantilha da Harmonia garantir-me-ão, acredito, negócio para a próxima década. Estejam atentos.

Leave a Reply

 

 

 

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>